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Investidor Institucional
14 de maio de 2026

IPMC cria fundos exclusivos

IPMC cria fundos exclusivos RPPS maio 14, 2026 ...

IPMC cria fundos exclusivos
Créditos: Investidor Institucional

IPMC cria fundos exclusivos

Edição 386

“O portfólio estava montado para fazer gestão de fluxo, não para uma gestão de planos de previdência”, afirma Marcos Litz, diretor de investimentos do IPMC

O Instituto de Previdência Municipal de Curitiba (IPMC) está promovendo uma reestruturação profunda em sua área de investimentos, baseada em dois movimentos principais. O primeiro é a marcação na curva de uma carteira de títulos públicos federais próxima de R$ 1,7 bilhão, já praticamente concluída. O segundo é a transformação da parcela de gestão ativa, hoje distribuída em 23 fundos de renda fixa, renda variável e multimercados, em três fundos exclusivos com gestão terceirizada. “O portfólio estava montado para fazer gestão de fluxo, não para uma gestão de planos de previdência”, afirma Marcos Litz, diretor de investimentos do IPMC. “É o que estamos fazendo.”
A primeira parte da mudança, relacionada à carteira de títulos públicos, já está praticamente concluída. Segundo Litz, o instituto tinha uma carteira de títulos federais marcada integralmente a mercado, o que ampliava a volatilidade de uma posição com perfil previdenciário de longo prazo. Com a reestruturação, o IPMC passou a ter algo próximo a R$ 1,7 bilhão em títulos públicos federais marcados majoritariamente na curva.
A decisão busca reduzir a volatilidade contábil da carteira e diminuir o risco de oscilações de mercado produzirem déficits incompatíveis com o perfil de longo prazo do passivo. “Não fazia sentido a gente ter volatilidade nessa carteira, porque o duration é de longo prazo”, diz Litz.
Os títulos foram adquiridos em diferentes momentos e vencimentos, com taxas médias de rentabilidade entre 2,3 e 2,4 pontos percentuais acima da meta atuarial. A meta do IPMC, cujo patrimônio atinge atualmente cerca de R$ 2,7 bilhões, é de IPCA + 5,59% ao ano. Na prática, o instituto aproveitou o ciclo de juros elevados para travar retornos reais acima da necessidade atuarial.

Gestão ativa – A segunda parte da mudança corresponde à reorganização da parcela ativa da carteira. Segundo Litz, o processo começou com a redução do número de fundos, que caiu de 43 para 23 desde que ele chegou ao instituto, em fevereiro do ano passado. A redução não foi apenas quantitativa. O objetivo foi eliminar sobreposições, reduzir correlações excessivas e preparar a carteira para ser transferida a mandatos mais especializados.
“Muitos desses fundos estavam diretamente correlacionados, o que não nos dava a diversificação que precisávamos”, afirma Litz. A carteira deixa, assim, de ser uma seleção pulverizada de fundos e passa a ser organizada segundo estratégias e objetivos complementares, e não conflitantes.
Paralelamente à redução do número de fundos, o IPMC abriu um processo de seleção para escolher três gestoras responsáveis pelos fundos exclusivos: um de renda fixa, um de renda variável e um multimercado. A seleção foi concluída em março. O Bradesco foi escolhido para administrar o fundo exclusivo de renda fixa, o BTG Pactual ficou com o fundo de renda variável e o Itaú com o multimercado.
No total, os três fundos devem somar quase R$ 600 milhões. A renda fixa ficará com o maior volume, próxima de R$ 300 milhões. A renda variável deve ficar em torno de R$ 200 milhões, e o multimercado, perto de R$ 100 milhões. Uma parcela da carteira permanecerá fora dos mandatos, em um fundo de liquidez, para atender às necessidades operacionais do instituto.
O desenho dos mandatos partiu de uma premissa de diversificação. Cada gestor poderia disputar mais de uma categoria, mas só poderia ser escolhido para uma delas. A regra evitou concentração e permitiu ao IPMC montar uma estrutura com três casas diferentes. “Nós conseguimos propostas muito competitivas, muito agressivas mesmo, e com estratégias muito interessantes”, afirma Litz.
A mudança na legislação dos investimentos dos RPPS, aprovada no final do ano passado, impôs limitações adicionais ao processo. O IPMC possui Pró-Gestão nível 2 e, por isso, precisou ajustar os mandatos. A renda fixa, que poderia ter algum componente de crédito privado, foi redesenhada sem crédito. O multimercado, inicialmente pensado com exposição ao exterior, também foi reformulado, retirando essa possibilidade.
“Tivemos que fazer ajuste dos mandatos das carteiras”, diz Litz. Com isso, o multimercado ganhou uma configuração mais macro e indexada, considerada pelo instituto mais adequada ao cenário atual, por reduzir a exposição a teses direcionais em um ambiente de incerteza.
A seleção também foi limitada a instituições financeiras dos segmentos S1 e S2. O instituto convidou 11 instituições e recebeu propostas de nove. A restrição poderia ter reduzido a competição e elevado custos, mas, segundo Litz, ocorreu o contrário. As propostas vieram competitivas, tanto em preço quanto em estratégia.

Fase operacional – Essa segunda etapa deve estar concluída e operacional no início do segundo semestre. A partir da implantação, os gestores terão mandato discricionário para ajustar as carteiras, respeitando as regras definidas pelo IPMC. Os fundos próprios dos gestores poderão ser usados para compor os exclusivos, mas com limite de 15% dentro de cada carteira. O instituto continuará responsável pelo credenciamento dos fundos e gestores que venham a compor os mandatos.
O próximo passo, depois da implantação dos três fundos exclusivos, será a reorganização da carteira imobiliária. O IPMC tem quase R$ 180 milhões nesse segmento, cerca de 7% do patrimônio total, principalmente em edifícios corporativos e salas comerciais no centro de Curitiba. A intenção é também transformar essa parcela em uma carteira administrada. Os terrenos existentes devem ser analisados para venda, já que o instituto não pode fazer novos investimentos no segmento imobiliário.

Rentabilidade – A reestruturação ocorre em um momento de crescimento patrimonial e bons resultados. O fundo previdenciário do IPMC fechou 2025 com R$ 2,616 bilhões e já está próximo de R$ 2,7 bilhões. No ano passado, a rentabilidade foi de 14,61%, acima da meta atuarial de 9,52%. Para Litz, o cenário de juros altos ajudou, mas não explica sozinho o desempenho. “Não foi só o cenário. O interessante disso foi tudo que a gente fez. A gente teve um ótimo resultado numa mudança intensa de estrutura”, afirma.
Em 2026, o instituto também vinha superando a meta até março. Janeiro foi positivo, fevereiro ficou ligeiramente abaixo e março voltou a superar o objetivo, apesar do ambiente mais difícil para os mercados. O IPMC atende cerca de 9 mil servidores no fundo previdenciário. O fundo financeiro, já fechado, não tem patrimônio e seus pagamentos são responsabilidade mensal da prefeitura.
A mudança de carteira exigiu reforço da estrutura interna. A equipe de investimentos passou de três para seis pessoas, com especialização de funções em análise, controle de risco e processamento de carteiras. O IPMC também adaptou um sistema da Aditus para acompanhar risco e performance no contexto dos RPPS. “A primeira fase era montar uma estrutura de técnicos para o instituto”, diz Litz.
Ao todo, o IPMC tem 65 colaboradores, distribuídos entre a diretoria administrativa e financeira, a área de previdência e a presidência, que concentra jurídico e controles internos. A nova estrutura de investimentos sinaliza uma mudança de escala: o instituto deixa de operar uma carteira pulverizada em fundos e passa a trabalhar com uma arquitetura mais próxima da gestão institucional, combinando títulos públicos marcados na curva, mandatos ativos especializados e acompanhamento por índices próprios.

IPMC terá índices próprios

O IPMC fechou acordo com a Teva Índices para desenvolver quatro índices customizados que serão usados no acompanhamento dos fundos exclusivos. A ideia é criar um índice para cada carteira — renda fixa, renda variável e multimercado — e um índice consolidado, capaz de medir o conjunto da alocação ativa.
Segundo Marcos Litz, os índices servirão para monitorar os gestores e conectar a composição das carteiras às necessidades atuariais do instituto, já refletidas nos estudos de ALM. “A gente vai criar um índice para cada uma delas e um índice consolidado”, afirma.
A renda fixa terá como referência a meta atuarial do IPMC, de IPCA + 5,59% ao ano. A renda variável será acompanhada pelo Ibovespa Mais. O multimercado também terá como referência a meta atuarial, mas com uma estrutura indexada, desenhada para reduzir a exposição a teses direcionais em um cenário macroeconômico incerto.
Para Litz, a criação dos índices próprios representa uma inovação na gestão de RPPS, por permitir que o instituto acompanhe os mandatos de forma mais aderente ao seu passivo atuarial. “A gente tem certeza que isso é inédito”, diz.